
Gostaria de propor uma relação entre o tema do meu trabalho no Projeto Conexões da Escola de Astrologia Integral da Deborah Worthington e aquilo que faço todos os dias há mais de vinte anos: criar viagens e acompanhar viajantes em suas jornadas.
Quando pensamos em viajar, normalmente pensamos apenas no deslocamento. Pensamos no destino, no hotel, nos passeios, nas paisagens e em tudo aquilo que sonhamos viver quando chegarmos lá. Mas existe algo muito mais profundo envolvido nessa travessia.
Há alguns anos venho observando o comportamento das pessoas diante dos imprevistos. Quando criamos uma viagem na nossa mente ela costuma ser perfeita. O mesmo acontece quando planejamos um casamento, compramos uma casa ou organizamos uma festa importante. Criamos expectativas, imaginamos cenários e, de alguma forma, acreditamos que tudo acontecerá exatamente como planejamos.
A verdade é que não fomos ensinados a lidar com a frustração.
E a vida, assim como as viagens, apesar de serem feitas de sonhos, acontece dentro da realidade. E a realidade pressupõe aprendizados. Aprendizados chegam através das surpresas boas, mas também através das ruins. Chegam através do tão temido “perrengue”.
O perrengue ensina a todos. Ensina quem decidiu viajar e ensina quem decidiu trabalhar com viagens.
Muitas pessoas imaginam que trabalhar com turismo é ajudar pessoas a realizar sonhos. E realmente é. Mas existe uma parte da profissão que quase ninguém vê. Trabalhar com viagens é, muitas vezes, ajudar pessoas a enfrentar e atravessar perrengues.
Ao longo desses anos eu já vi e ouvi de tudo. E observando pessoas completamente diferentes enfrentando exatamente o mesmo problema, percebi algo que mudou minha forma de enxergar o mundo: a lente através da qual cada indivíduo vê a vida determina aquilo que ele considera um problema.
Um voo atrasado pode arruinar as férias de uma pessoa e se transformar apenas em uma história engraçada para outra. Uma mala extraviada pode ser encarada como uma tragédia ou como um contratempo. O acontecimento é o mesmo. O significado atribuído a ele é que muda.
E foi justamente essa observação que me aproximou da Astro psicologia.
Porque o mapa não mostra apenas o que acontece conosco. Ele revela a lente através da qual interpretamos aquilo que acontece. E cada um de nós tem uma lente diferente, já nascemos com ela e também com o potencial de mudá-la. Isso não é incrível?
E quando mudamos a lente, mudamos a experiência.
Foi então que comecei a perceber que a vida nos transforma principalmente através de quatro caminhos: dos relacionamentos, do tempo, dos deslocamentos e das experiências internas. A viagem pode reunir todos eles ao mesmo tempo. Conhecemos pessoas novas, saímos da rotina, entramos em contato com culturas diferentes, enfrentamos situações inesperadas e descobrimos recursos internos que nem sabíamos que possuíamos.
Por isso algumas viagens nos transformam profundamente enquanto outras se tornam apenas um álbum de fotografias.
Uma das ideias centrais da Astro psicologia é que repetimos padrões até que eles se tornem conscientes. A mesma situação pode aparecer em diferentes cidades, países ou continentes. O destino muda, mas o aprendizado continua sendo o mesmo.
É por isso que algumas pessoas visitam o mundo inteiro e continuam vivendo os mesmos conflitos. E também é por isso que outras fazem uma única viagem e voltam diferentes.
A diferença não está no lugar.
Está na consciência com que a experiência é vivida.
Uma viagem com significado não é necessariamente aquela que tem mais atrações ou mais luxo. Também não é aquela em que tudo deu certo. Na verdade, muitas vezes ela começa justamente quando algo sai do controle.
Uma guerra do outro lado do mundo cancela o seu voo. O cartão não aprova na hora de fechar aquela oportunidade imperdível. Você erra a data da reserva do hotel. Esquece um documento. Perde uma conexão. Extravia uma mala.
Em poucos segundos você sai da euforia para o desespero.
Eu já vi tudo isso acontecer. E também já vivi muitas dessas histórias.
É nesse momento que algo muito interessante acontece.
Existe um instante quase imperceptível entre o fato e a reação. Um espaço minúsculo entre o caos e o crescimento. Entre o medo e a coragem. Entre o desespero e a confiança.
Na maioria das vezes não percebemos esse espaço. Apenas reagimos.
E então surge a pergunta que todos nós fazemos em algum momento da vida:
“Por que isso está acontecendo comigo?”
Talvez a Astro psicologia nos convide a fazer uma pergunta diferente:
“E se isso estiver acontecendo para mim?”
Porque eu quero te dizer uma coisa que aprendi observando milhares de viajantes ao longo dos anos.
A vida não está contra você. Nem nas viagens. Nem fora delas.
Ela está constantemente criando experiências que favorecem o seu crescimento, ainda que muitas vezes você não consiga perceber isso no momento em que elas acontecem.
Viajar não é apenas atravessar oceanos, fronteiras ou continentes.
É atravessar a si mesmo.
E talvez seja por isso que algumas jornadas permaneçam conosco para sempre. Não pelas fotos que tiramos ou pelos lugares que visitamos, mas porque mudaram a pessoa que voltou para casa.


